24 de setembro de 2026

O tiro saiu pela culatra

O episódio envolvendo a operação orquestrada pelo vereador André Salineiro na ocupação conhecida como “Carandiru”, no bairro Mata do Jacinto, revela um complexo e preocupante quadro de ausência de sensibilidade social e falta de entendimento sobre as reais necessidades da comunidade. Embora o intuito declarado do vereador seja legítimo — combater o tráfico de drogas, furtos e outros ilícitos — a maneira como a ação foi conduzida reforça um padrão de políticas repressivas que penalizam a população mais vulnerável, colocando em risco famílias inteiras, muitas delas com crianças doentes, autistas e em situação de extrema fragilidade.

Ao articular um aparato policial robusto com apoio de concessionária que cortou o fornecimento de água, o vereador não apenas falhou no objetivo principal de desarticular as redes criminosas, como agravou a situação das 45 famílias que vivem no local há anos, submetidas a condições precárias. A ausência de planejamento para medidas sociais e assistenciais, aliada à falta de diálogo e empatia, transforma ações ostensivas em episódios de sofrimento e insegurança, em vez de soluções efetivas. Cortar a água em uma comunidade com crianças que precisam se alimentar, se higienizar e frequentar a escola, revela total insensibilidade e um desserviço público inaceitável.

O papel de um representante público deveria ir além do policiamento armado: deveria ser o de fomentar políticas inteligentes e humanizadas, que combatam o crime sem sacrificar vidas e dignidades. O uso do aparato militarizado, reminiscentes de estratégias empregadas em contexto de confrontos urbanos dramáticos como no Rio de Janeiro, deveria ser repensado e adaptado à realidade local, respeitando os direitos das pessoas que, acima de tudo, são vítimas de um sistema que falha em garantir moradia digna e oportunidades.

O discurso de segurança pública deve estar ancorado na inteligência, prevenção, inclusão social e fortalecimento da rede de proteção e apoio para as famílias em vulnerabilidade. Precisamos de políticas que erradiquem o crime sem extinguir a esperança das comunidades; que desarmem o conflito mantendo a cidadania e a dignidade. Em suma, a operação do vereador André Salineiro, longe de ser um avanço, expõe a continuidade do abandono institucional e a escolha por soluções simplistas e autoritárias que, além de ineficazes, aprofundam as desigualdades e o sofrimento. É um chamado urgente para que se repense a forma como o poder público atua nesses territórios, privilegiando a vida, a justiça social e o respeito aos direitos humanos.

Valmirar Gomes

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