Um encontro de almas: “Maria Alice canta Geraldo Espíndola”
Na última terça-feira (02), o Teatro Prosa, no Sesc Horto, viveu uma daquelas noites que ficam gravadas na memória — e no coração. Com a casa lotada e uma energia vibrante no ar, Maria Alice subiu ao palco para apresentar o álbum “Maria Alice canta Geraldo Espíndola”, e o que se viu ali foi mais que um show: foi um abraço musical, uma celebração da arte e da história sul-mato-grossense.
Logo nos primeiros acordes, Maria Alice tomou o público pela mão. Sua presença de palco — forte, elegante e absolutamente sincera — aliada a uma voz que parece acariciar a alma, transformou cada canção em um convite ao sentimento. Acompanhada por uma banda de músicos brilhantes e por uma produção impecável de Andréa Freire e Belchior Cabral, da Marruá Arte e Cultura, a artista percorreu as 14 faixas do álbum com a sensibilidade de quem canta não apenas com técnica, mas com o coração inteiro.
A obra de Geraldo Espíndola — um dos maiores compositores do Brasil, um poeta do Pantanal e da vida — renasceu em novas cores na voz de Maria Alice. E a noite ganhou momentos inesquecíveis: a doce e encantadora participação do próprio Geraldo em “Tuiuiú-Jaburú”; a força pulsante de Anarandá MC declamando, em guarani e português, a luta indígena em “Kikio”; o improviso emocionante de Humberto Espíndola em “Mixórdia”, retirado de uma gravação amadora; além das presenças luminosas de Magão, Ana Ferreira, Hudson Campos e Guilherme Ferreira.
Com mais de 35 anos de carreira, Maria Alice reafirma neste álbum — seu quarto — a maturidade artística de quem sabe ouvir, interpretar e honrar cada verso. Ela mergulhou fundo na extensa obra de Geraldo, guiada por Pedro Ortale e Jerry Espíndola, responsáveis pela direção musical e vocal, arranjos e pelo toque afetivo que conecta gerações.
A homenagem de Maria Alice tocou profundamente Geraldo Espíndola. Emocionado, ele celebrou o resultado:
“As canções ficaram lindas, cheias de sentimento. A Maria Alice canta com a alma. A produção é impecável, os arranjos maravilhosos. Senti respeito, carinho e a amizade de décadas. Este disco é um gesto de amor. Eu adorei.”
O repertório, diverso e potente, atravessa paisagens afetivas: os hits eternos (“Kikio”, “Cunhataiporã”); o imaginário cultural sul-mato-grossense (“Forasteiro”); os chamados urgentes ao meio ambiente e aos direitos humanos (“Não Violência”); as canções de amor que tocam fundo (“Fala Bonito”, “Rosa em Pedra Dura”); e a verve bluseira de Geraldo (“Deixei Meu Matão” e “Desesperada na Rua”). A surpresa maior ficou para “Vida Cigana”, que ganhou um arranjo delicado em bossa nova — e que, no palco, soou como um suspiro coletivo. Ao final, ficou a sensação de que algo raro tinha acontecido: uma comunhão entre artista, público, compositor e história. Uma noite para sentir, para lembrar e para agradecer.
Porque quando Maria Alice canta Geraldo Espíndola, não é só música que acontece.
É poesia viva.
É afeto.
É amor em estado de canção.
Por Valmirar Gomes
fotos: Rogério Medeiros




