Comunidade Tia Eva festeja restauração da Igreja São Benedito

(O templo e seu entorno começam a ser revitalizados por obras que avivam simbologia afrodescendentes)
Habitada por descendentes de escravos e um dos endereços mais emblemáticos de Campo Grande, a Comunidade Tia Eva acaricia, com intensa expectativa, a realização e a entrega das obras de restauração de seu maior símbolo representativo. O governo estadual está cumprindo o compromisso de restaurar a Igreja São Benedito e revitalizar seu entorno, com obras em ritmo acelerado.
A igreja é um dos focos da simbologia religiosa que caracteriza a história e a cultura da população afrodescendente, instalada secularmente na área do Jardim Seminário e da saída para Corguinho. É um importante marco histórico-cultural afro-brasileiro, pedaço expressivo do mosaico formado pelo sincretismo que adorna a cultura de um povo. Conduzidas pela Secretaria Estadual de Infraestrutura e Logística (Seinfra), as obras foram discutidas com a comunidade e estão levando em conta as devidas adequações para não afetar o calendário de festas e celebrações.
UM PRESENTE – A comunidade é um dos quilombos urbanos mais antigos do País. Foi fundado no início do século XX por Eva Maria de Jesus, uma ex-escrava que semeou resistência e amor para a população negra que fez moradia na cidade, nos primórdios de sua ocupação. Neste ano, quando se comemora o primeiro centenário da morte da Tia Eva, a restauração da igreja chegou como um presente para os moradores. Um deles, Antônio Borges dos Santos, 70, descendente da Tia Eva, se emociona.
“Esta obra traz a chance de reconstruir como era antigamente e a lembrança de quando éramos crianças. É a nossa história que precisa ser contada e dividida com a cidade”, diz Borges, diante da igreja. “Quando era pequeno, um dos maiores sonhos era crescer para poder bater o sino. A gente vivia isto na nossa infância”. A seu ver, será possível resgatar o que está perdido, sobretudo desde 2019, quando a igreja foi interditada. “Temos a necessidade de estar dentro da igreja e passar à juventude e às crianças a nossa fé”.
Ex-subsecretária estadual de Políticas da Igualdade racial, Vânia Lúcia Baptista nasceu e cresceu na comnunidade. Ela destaca o alívio pelo fim de uma longa espera. “Primeiro é o retorno das atividades na igreja. Toda sexta-feira os mais velhos rezavam o terço de São Benedito. Isso foi interrompido com a interdição”, conta. “Além das missas, temos casamentos, batizados, velórios e até o antigo Mobral funcionou lá. As crianças brincavam no entorno”. Uma das celebrações acontece em maio: a Festa de São Benedito, que já tem mais de 100 anos.
A REVITALIZAÇÃO – A obra prevê o restauro arquitetônico da igreja, a conservação de bens artísticos históricos – como o sino, o busto de Tia Eva e o Cruzeiro de madeira – e a requalificação completa do espaço comunitário. Segundo Adanilto Faustino de Souza Jr, gerente de Projetos e Orçamentos Civis da Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos), desde o início até agora, na execução, a comunidade participa. “Ajustamos o cronograma para contemplá-la”, explicou.
Para não atrapalhar a Festa de São Benedito, os trabalhos vão se concentrar agora na restauração da igreja, com a intenção de deixá-la pronta até novembro, quando serão as comemorações do centenário de falecimento da Tia Eva. O salão de eventos começa a receber os reparos após a festa, assim como todo o entorno, um novo espaço do centro comunitário, sala de oficinas modernizadas, banheiro acessíveis, centro de atendimento ao cidadão e visitantes e o salão de festas com reforma e ampliação.
Edson Moraes

Igreja de São Benedito: simbologia histórica da comunidade

Antônio Borges é trineto de Tia Eva e morador do local

Vânia Baptista, ex-subsecretária de Igualdade Racial
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