Resiliência na Terra: Como a Comunidade Quilombola Furnas do Dionísio Transforma Desafios em Legado e Autonomia

Por Maria Aparecida da Silva Martins*
FURNAS DO DIONÍSIO (MS) — Estar à frente de uma associação comunitária não é uma tarefa simples, e longe de nós romantizar essa jornada. Liderar exige encarar de frente os pontos negativos, as burocracias e as situações difíceis que, no fundo, torcemos para que fiquem no passado. Mas a verdade é que, mesmo quando o caminho não é um mar de rosas, nós estamos avançando. Há um ano e meio assumi a presidência da Associação de Pequenos Produtores Rurais de Furnas do Dionísio após ter atuado na diretoria de finanças desde 2021. O nosso objetivo principal? Construir um belo legado e garantir que as próximas gerações tenham a estrutura necessária para dar continuidade ao que nossos antepassados começaram.
Hoje, Furnas do Dionísio pulsa através do trabalho coletivo. Para descentralizar a gestão e dar voz a quem realmente faz a comunidade acontecer, criamos diretorias internas específicas: Saúde, Agricultura Familiar, Turismo, Educação e Juventude. Cada uma delas é liderada por um morador. Essa divisão não apenas alivia o peso sobre a diretoria central, mas devolve a autonomia para o nosso povo, fortalecendo a confiança mútua e unindo a comunidade em torno de um propósito comum.
O Resgate Cultural como Escudo
Através da associação, conquistamos o reconhecimento oficial como um Ponto de Cultura, uma ferramenta crucial que nos permite captar projetos e realizar oficinas onde os próprios moradores são os instrutores. Estamos resgatando tradições que corriam o risco de desaparecer, como o manuseio e a confecção da peneira de taboca — historicamente utilizada por nossos antepassados para limpar o arroz e o feijão. Embora os tempos tenham mudado, manter esse saber vivo é manter nossa identidade intacta.
O mesmo movimento acontece com o artesanato feito a partir da fibra de bananeira e dos frutos do Cerrado, e com as nossas danças tradicionais. Além do conhecido Engenho Novo, estamos trazendo de volta a dança da Catira, reconectando nossos jovens com a herança cultural do quilombo.
Da Roça para a Mesa: Fortalecendo a Agricultura Familiar
O coração econômico de Furnas do Dionísio bate na terra. Com o apoio de um grupo de jovens engajados que cuida das redes sociais e do contato com os turistas, conseguimos impulsionar a nossa produção. Hoje, participamos ativamente de editais do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), incluindo o PAA Quilombola, e levamos o sustento de nossas famílias para feiras em Campo Grande e grandes eventos como o Pantanal Tec.
Nossa produção cresceu tanto que a cantina na sede da associação, que revende os produtos locais, frequentemente esvazia antes do fim da semana. Esse sucesso devolveu ao produtor quilombola a confiança de que vale a pena plantar, pois a venda é garantida.
O Cerco da Soja e o Sonho Agroecológico
No entanto, o sofrimento e os desafios ecológicos batem à nossa porta. Atualmente, Furnas do Dionísio encontra-se cercada pelas lavouras de soja. Esse isolamento geográfico e o uso de defensivos no entorno direto impedem, por enquanto, que nossa produção receba o selo de orgânica, uma vez que as pragas e os impactos externos inevitavelmente migram para as nossas roças.
Para resistir a esse cenário, iniciamos uma parceria com a Embrapa e, recentemente, com a Agraer, visando a transição para a plantação agroecológica. É um trabalho de formiga para tentar devolver a pureza total à nossa produção de alimentos e proteger o nosso ecossistema.
Um Convite à Resistência e à Celebração
Apesar de todas as pedras no caminho, Furnas do Dionísio é um lugar de celebração e acolhimento. Queremos convidar toda a sociedade para conhecer a nossa história de perto.
Nos dias 15 e 16 de agosto, realizaremos o nosso Festival Anual da Rapadura. Este é o maior evento do nosso calendário, integralmente gerido pelos moradores que assumem suas próprias barracas de alimentos, hortifrúti, farinha, queijo e, claro, a nossa tradicional raparuda. É a nossa cultura viva, gerando renda, sustentabilidade e mostrando que o Quilombo Furnas do Dionísio permanece firme, preservando o passado e plantando o futuro.
Maria Aparecida da Silva Martins é presidente da Associação de Pequenos Produtores Rurais de Furnas do Dionísio.

