Grito de guerra da PMMS normalizando a violência policial é justificado pelo deputado e coronel David
Parlamentar bolsonarista afirma que frases como “espanca até matar” “arranca a cabeça” são apenas um recurso motivacional
“Bate na cara, espanca até matar/Arranca a cabeça e joga ela pra cá/E o interrogatório é muito fácil de fazer/Eu prendo o vagabundo e bato nele até morrer/Dessa daqui, todos conhecem, faca da PM que cancela o CPF”
Segundo o deputado estadual bolsonarista Coronel David (PL), que é coronel reformado e ex-comandante da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, estes versos singelos e inocentes não são palavras de ódio, mas de coragem, de quem põe a vida em risco todos os dias. Ele se refere ao “grito de guerra” entoado pela nova turma da PM durante o ato solene de sua formatura, na quinta-feira, 31.
David levantou a sua voz nas redes sociais para atacar as pessoas que não gostaram ou reprovaram aquela manifestação grotesca e mórbida da força policial. Para ele, frases como “bate na cara, espanca até matar” ou “arranca a cabeça e joga ela pra cá” são meramente motivacionais e servem de “escudo contra o medo”, em um método de formação pelo qual o policial “aprende a não recuar diante do caos”.
JEITO DE SER – O deputado-coronel quer ficar de bem com a tropa, seus familiares e a grande parcela da sociedade que surfa no “jeito bolsonarista” de ser, fomentando a violência pela violência e erigindo o sumarismo da vala comum para julgar e lançar nela pecadores e inocentes. Ao prescrever a normalização da violência oficial como receita para reagir ao crime e aos criminosos, David deixa sua digital, triunfalmente, na cartilha do “atirar primeiro e perguntar depois”.
É pertinente a observação do Coronel David sobre a escolha óbvia que as pessoas verdadeiramente de bem devem fazer, conforme sugere a sua frase: “Eu fico do lado de quem põe a vida em risco todos os dias. Honro cada policial que veste essa farda com coragem. Vocês são a muralha entre o povo e o terror”. Qualquer pessoa fica com a classe de policial que veste a farda com coragem e honra, que em vez de medo transmita segurança e confiança. Mas em qualquer corporação há bons e maus policiais. E David sabe disso, embora se esconda em seu texto.
David se reforça com um argumento oportunista e demagógico, ao indagar: “O que te assusta mais: o grito de guerra no quartel ou o silêncio de uma família que acabou de enterrar mais uma vítima da violência”? E a pergunta é feita sem considerar que também são vítimas do crime os homens, mulheres e crianças inocentes que os policiais despreparados executam à queima-roupa por despertarem suspeitas morando em favelas, por serem negros ou desocupados. “É tudo vagabundo”, ensina o refrão criado para encorajar a tropa.
COM A VERDADE? – Engana-se o Coronel David como porta-voz da barbárie ao atacar quem se escandaliza com a disciplina da tropa. E tal afirmação vem com um requinte, quando ele sentencia: “Eu enxergo a verdade”. E a verdade não celebra a justiça com as próprias mãos de quem deve resguardá-la e assegurá-la. Isto não significa defender crime e criminoso, tampouco ter condescendência com o malfeito, mas submeter-se ao instituto civilizado da lei e só sair dele quando for estritamente necessário
A canção da formatura, infelizmente, desvia-se da sensatez. E ao contrário do que o deputado quer impor, não serve de exemplo ou de motivação civilizada, nem fora, nem dentro dos quartéis. Se a formação de um bom policial militar impõe a autoprovocação agressiva para insuflar a violência como gatilho da coragem, a segurança pública perdeu sua essência e seu equilíbrio, passa a ser um mecanismo de reprodução da insensatez coletiva, hoje disseminada nas redes sociais.
Da redação

