A educação é a base de tudo? Só no discurso. Na prática, em Campo Grande, é o esquecimento.

Por Valmirar Gomes
Existe uma máxima na política brasileira que se repete com a precisão de um relógio suíço: basta o calendário se aproximar dos anos eleitorais para que a palavra “Educação” vire o mantra absoluto de candidatos de todos os espectros ideológicos. O discurso é uníssono e Coreografado: “A educação é a base de tudo”. No entanto, quando as urnas se fecham e as luzes dos estúdios de gravação se apagam, a realidade que emerge nos municípios é um espetáculo de descaso e desvalorização.
O exemplo mais recente desse estelionato eleitoral ganha contornos dramáticos em Campo Grande. A recusa do Executivo municipal em conceder o reajuste pleiteado pela ACP (Sindicato Campo-Grandense dos profissionais da Educação Pública) não é apenas uma disputa orçamentária; é um sintoma de uma inversão de prioridades que beira o escárnio.
Enquanto o discurso oficial prega o desenvolvimento, “Campo Grande das oportunidades”, a prática asfixia financeiramente aqueles que são os verdadeiros pilares desse desenvolvimento: os professores.
O reajuste exigido pela categoria não visa o luxo, mas a dignidade mínima. Hoje, para conseguir sustentar suas famílias, o professor campograndense se vê obrigado a se desdobrar em jornadas duplas ou triplas. O resultado dessa maratona insana é previsível e cruel:
Esaustão física e mental do corpo docente.
Aniquilação do tempo livre indispensável para a pesquisa, planejamento e preparo de aulas inovadoras.
Queda sistêmica na qualidade do ensino ofertado às crianças e jovens.
Como exigir excelência de um profissional que passa o dia correndo de uma escola para outra, engolindo o almoço no trânsito, apenas para fechar as contas do mês?
A desculpa da “escassez de recursos” já não convence ninguém. O dinheiro público existe — os impostos continuam sendo pagos rigorosamente pela população —, mas o destino real dessas verbas permanece envolto em uma névoa de falta de transparência. Abre-se o caixa para asfalto eleitoreiro e publicidade institucional, mas fecha-se o bolso na hora de cumprir o piso nacional do magistério.
Diante do canal de diálogo obstruído pela intransigência do poder público, a greve deixa de ser uma escolha e passa a ser o único recurso de legítima defesa. O direito à associação e à paralisação, garantido por lei, torna-se a última trincheira de uma categoria exausta de ser usada como trampolim político.
Se a educação fosse, de fato, a base para tudo neste país, o professor seria tratado como prioridade de Estado, e não como um gasto a ser cortado. Enquanto a valorização da categoria for tratada como favor — e não como obrigação —, os discursos políticos continuarão sendo o que sempre foram: uma peça de ficção de mau gosto encenada a cada quatro anos.
Valmirar Gomes


