Petróleo, tutela e o risco de uma soberania negociada
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela revela um padrão que não pode ser ignorado: quando interesses estratégicos entram em jogo, a retórica da liberdade costuma caminhar junto com a disputa por recursos naturais. A captura de Nicolás Maduro abriu caminho para uma transição política conduzida sob forte pressão de Washington, e o governo interino de Delcy Rodríguez passou a operar em um espaço cada vez mais estreito.
Não é exagero dizer que a soberania venezuelana está em xeque. O acordo petrolífero firmado com os Estados Unidos dá acesso privilegiado a uma fatia expressiva das reservas do país e cria concessões de longuíssimo prazo. Para o governo interino, trata-se de uma forma de atrair investimentos e reconstruir a economia. Para os críticos, é a entrega gradual de um patrimônio nacional em troca de apoio político e financeiro.
A pergunta que permanece é simples: quem decide pelo povo venezuelano? A transição avança sem eleições, com uma oposição dividida e com os Estados Unidos atuando não apenas como mediador, mas como principal articulador do processo. Marco Rubio conduz as conversas, pressiona por eleições e, ao mesmo tempo, vincula a recuperação econômica à abertura do setor petrolífero a interesses estrangeiros. Isso não é neutro. É poder.
A divisão da oposição venezuelana facilita essa condução. Enquanto setores doposição exigem um calendário eleitoral claro, outros aceitam negociar sob a tutela americana. O resultado é uma transição sem prazo definido, sem garantias plenas de competição eleitoral e com um governo interino que depende de Washington para sobreviver.
No Brasil, o temor é diferente, mas não menor. A possibilidade de apoio externo a forças políticas alinhadas a Trump levanta um alerta legítimo: países com grandes reservas naturais, mercado consumidor e posição geopolítica estratégica sempre foram alvo de disputas internacionais. A história do Brasil mostra que a riqueza nacional já foi alvo de exploração em outros períodos. Ignorar esse passado seria ingenuidade.
Ainda assim, é preciso cuidado com comparações automáticas. O Brasil não é a Venezuela. Tem instituições mais consolidadas, uma economia mais diversificada, um sistema eleitoral robusto e uma sociedade civil ativa. A soberania brasileira não será perdida por decreto externo; ela será disputada, sobretudo, nas urnas, no Congresso, nas políticas públicas e na capacidade do país de defender seus interesses.
Por isso, a crítica não deve ser feita com paranoia, mas com vigilância. Um eventual apoio americano a candidatos alinhados a interesses estrangeiros precisa ser examinado com transparência. Quem defende a soberania não pode aceitar que decisões sobre petróleo, minério, tecnologia, segurança e comércio sejam tomadas sem debate público e sem interesse nacional claro.
A lição da Venezuela é dura: quando a política interna se fragiliza, os interesses externos encontram espaço para avançar. O Brasil precisa aprender com isso. Defender a democracia não é apenas proteger o voto; é proteger a capacidade do país de decidir sobre seu próprio futuro.
Valmirar Gomes

