24 de setembro de 2026

Reinaldo Azambuja confessa uma das metas do seu mandato no Senado: acabar com o meio ambiente

(Ex-governador ignora estudos e advertências científicas e ataca “barreiras ambientais” criadas pela esquerda “para atrapalhar”

O ex-goverrnador Reinaldo Azambuja (PL), um dos candidatos do bloco bolsonarista ao Senado em Mato Grosso do Sul, afirmou que se Flávio Bolsonaro (PL) vencer a disputa presidencial vai reiterar a ele uma sugestão que já havia feito: acabar com o Ministério do Meio Ambiente. “Se o Flávio me chamar pra fazer a transição, eu ajudo, com a experiência que a gente tem. Falei pra ele: você quer fazer o Brasil avançar, primeira coisa que você faz: acaba com o Ministério do Meio Ambiente”.
Relatada por Azambuja durante entrevista para o podcast Café & Política na sexta-feira, 19, esta conversa aconteceu quando ele e Flávio se encontraram em Brasília há alguns dias para a gravação de programas de TV. “Ele contou que reforçou a sugestão ao filho de Jair Bolsonaro: “Faz igual eu fiz em Mato Grosso do Sul. Falei pra ele. Tira essa politização que está atrapalhando e vamos discutir temas que importam ao Brasil”.
Ele ainda emendou: “Eu já discuti com a esquerda quando fui discutir o Código Florestal. Só que eles são tapados no assunto. Não querem discutir o Brasil, querem é criar problemas a quem produz na indústria, no comércio, na infraestrutura”. Em seguida, defendeu a navegação comercial propondo o ajuste de calado na hidrovia, medida para favorecer o emprego de grandes embarcações no transporte de mercadorias pesadas, como o minério.
“Porque dragar três pontos de um rio…que que é dragar o rio? É tirar areia e jogar no barranco. Porque que não pode? O que é que vai atrapalhar no Pantanal, no Rio Paraguai? Não atrapalha nada”, questiona Azambuja. “É que eles não querem que a gente seja competitivo. Agora começam a criar as barreiras ambientais, os problemas fundiários”.
TRIBUNAL – Os argumentos de Azambuja denunciam a convicção de quem não conhece ou simplesmente ignora as advertênciuas coentíficas que, de diversas e qualificadas fontes, apontam graves consequências aos cursos fluviais do Pantanal estarão sujeitos, caso prospere um projeto de concessão do Tramo Sul da Hidrovia do Rio Paraguai. O ex-governador, seguindo o cortejo de negacionismo científico puxado por Jair Bolsonaro, quer extinguir o Ministério do Meio Ambiente, alegando que a Pasta está politizada, criando barreiras ambientais para imepedir o desenvolvimento.
Um artigo do respeitado jornalista e graduado em Biologia, Eduardo Geraque, publicado em janeiro de 2025 pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), chama a atenção para os impactos danosos que ocorrerão se o Rio Paraguai fotr submetido a dragagens e derrocamentos para aumentar o seu calado e favorecer a navegação comercial em larga e pesada escala. Geraque cita que “os possíveis impactos ambientais do projeto preocupam, e muito, pesquisadores de diversas áreas que atuam no Pantanal”.
FIM DO BIOMA – Geraque conta que em 2024 a revista holandesa Science of the Total Environment publicou um artigo de 42 cientistas do Brasil, Inglaterra, EUA e Alemanha com um título que não deixa qualquer dúvidas: “O fim de todo um bioma? O Pantanal, a mais vasta terra alagável do mundo, está sendo ameaçada por um projeto de hidrovia cuja capacidade para suportar tráfego em larga escala de maneira sustentável é incerta”.
Neste mesmo artigo, os cientistas mencionam danos ao ecossistema, às etnias e marcos da civilização local, assim descritos: “(…)a dragagem contínua, necessária devido aos sedimentos arenosos do rio, será um grande problema. Os trechos que exigem maior intervenção coincidem com áreas de alto valor ecológico, como Parques Nacionais, Patrimônios Mundiais da Unesco, Reservas da Biosfera, reservas indígenas e sítios de tipo Ramsar, categoria que identifica áreas úmidas protegidas por serem consideradas importantes para todo o planeta”.
Segundo os cientistas,”a dragagem constante não apenas será cara como também reduzirá as áreas alagáveis, afetando os ecossistemas. Além disso, o destino dos sedimentos dragados – a planície de inundação – causará danos ambientais significativos. Também citado no artigo, Pierre Girard, doutor em hidrologia pela Université du Québec, no Canadá, e professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), enfatiza que a dragagem funcionará como um autêntico dreno, acelerando o escoamento da água, contribuindo para a seca no Pantanal e ampliando os riscos de incêndios e danos à vegetação.
CAUTELAR – Na contramão de negacionismo encarnado por Azambuja, a senadora Soraya Thronicke (PSB) havia ingressado com medica cautelar na tentativa de barrar o andamento do projeto. O Tribunal de Contas da União (TCU) negou o pedido, porém determinou que questionamentos ambientais, sociais e fiscais sejam incorporados à análise de riscos da concessão. O processo tramita no TCU desde agosto de 2025 e depende do envio de documentos exigidos pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), que patrocina o projeto – o que também desmente Azambuja, que acusou a esquerda de ser contra e só querer atrapalhar.
O tramo sul tem cerca de 600 quilômetros entre Corumbá e a foz do Rio Apa, na região de Porto Murtinho, e é considerado estratégico para a ampliação do transporte hidroviário de cargas na região. A concessão prevê investimentos privados de R$ 64 milhões. Sua meta é elevar a capacidade de movimentação de 8,5 milhões para até 30 milhões de toneladas por ano até 2030. O projeto integra o Plano Geral de Outorgas Hidroviário (PGO), do governo federal. O leilão foi transferido para 2027.
Entre outros motivos, Soraya Thronicke questiona a previsão de que a União possa assumir custos relacionados a obras de derrocamento (retirada de pedras) e riscos associados a épocas de secas extraordinárias. A senadora anexou dados oficiais para afirmar que as obras previstas no projeto podem alterar o chamado “pulso de inundação do Pantanal, “com possíveis efeitos sobre áreas de reprodução de peixes e os riscos de remobilização de metais pesados e outros contaminantes acumulados no leito do rio”. Soraya cobrou a realização de uma Avaliação Ambiental Estratégica “que considere os impactos cumulativos das hidrelétricas existentes na bacia hidrográfica”.

Edson Moraes

O Rio Paraguai: projeto prevê dragagem entre Corumbá e Porto Murtinho – foto Instagram

Reinaldo Azambuja: “Tira essa politização do ministério” – foto Instagram

A senadora Soraya Thronicke: advertências reconhecidas – Foto Agência Senado

 

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