9 de outubro de 2026

Corregedoria da Câmara avalia agressões bolsonaristas a Marina

Secretaria da Mulher oficializa queixa contra senadores e deputados  idenificados com a “cultura” do ex-presidente 
  Estimulados pela certeza da impunidade, alguns parlamentares do bloco bolsonarista vêm se revezando numa série de ofensas e agressões misóginas contra mulheres de partidos adversários ou representantes de outras instituições que vão ao Congresso Nacional atender convocações das comissões. Na tentativa de coibir tais práticas, a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados acionou a Corregedoria Parlamentar, depois de a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, sofrer insultos de parlamentares duas vezes em menos de um mês.
Pela contundência com que defende suas posições, geralmente na contramão de ideias das bancadas ruralista e da bala, Marina tornou-se um dos alvos. Na ltima quarta-feira (2), ela foi à Comissão de Agrcultura prestar informações sobre temas ambientais. O deputado Evair de Melo (PP/ES), da bancada ruralista e autor da  convocação, comparou-a a grupos como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Hamas, na Faixa de Gaza.
Não satisfeito, voltou a associar Marina ao câncer, repetindo uma declaração anterior: “Um dia, fiz uma citação comparando-a ao câncer. E  pedi desculpas, porque o câncer muitas vezes tem cura”, disparou Melo. E acrescentou, chamando-a de adestrada, expressão usada para a doma ou o controle de animais. Em seguida, durante uma fala mais inflamada de Marina em defesa do governo, o deputado Cabo Gilberto (PL/PB) cobrou calma, uma postura machista, já que a ênfase nos discursos dos homens normalmente não é criticada.
SEPARAR A MULHER – Em maio, a ministra passou por uma situação parecida e acabou deixando uma audiência na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado após ser atacada pelo senador Plínio Valério (PSDB/AM). Na ocasião, o parlamentar pediu a palavra para fazer uma pergunta, mas a ofendeu. Ao cumprimentar Marina, ele disse que desejava “separar a mulher da ministra”, porque a mulher “merecia respeito” e a ministra, não.
Líder do PSDB no Senado, Valério já havia agredido verbalmente a ministra. Em março, durante audiência da CPI das ONGs, o senador fez uma indagação com mórbida ironia: “Imaginem o que é tolerar a Marina 6 horas e 10 minutos sem enforcá-la?”. Na ocasião, a ministra respondeu: “Com a vida dos outros não se brinca. Só os psicopatas são capazes de fazer isso”. Psicopatas e covardes também.
PERMISSIVIDADE – Os presidentes da Câmara, Senado e de diversas comissões – a maioria de direita ou bolsonarista – são condescendentes com os colegas agressores. Esta postura acovardada incentiva a violência verbal, que tem ainda outro gatilho: a forte influência de Jair Bolsonaro. O ex-presidente é useiro e vezeiro em atitudes machistóides. São comuns as atitudes e agressões machistas ao longo de sua trajetória.
Um dos casos mais conhecidos foi em 2014, quando Bolsonaro era deputado. Ao discutir nos corredores da Câmara com a colega Maria do Rosário (PT/RS), disse que não a estupraria por ser feia e não merecia. Processado por injúria e apologia ao crime, foi condenado ao pagamento de multa. Em 2011, numa entrevista, a cantora Preta Gil perguntou como reagiria se um filho se casasse com uma negra. A resposta: “Eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o seu”.
Nem mesmo a filha do ex-presidente escapou de suas indecorosas ironias. Em 2017, quando fazia uma palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, Bolsonaro falou sobre filiação e gênero exemplificando com a sua própria prole, com estas palavras: “Tenho cinco filhos. Foram quatro homens. Aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”. Desta “fraquejada” nasceu Laura, única filha do ex-presidente, que tinha apenas 10 anos no dia daquela palestra.
Edson Moraes

Marina e Evair: truculência bolsonarista é permitida pelas presidências congressuais  –  Foto Vinícius Loures/ Agência Câmara

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