O que o Brasil pode aprender com Polônia e Ucrânia sobre o preço da comida
Polônia e Ucrânia escancaram uma escolha política que o Brasil insiste em negligenciar: o governo deve priorizar o lucro imediato das commodities voltadas à exportação ou proteger a segurança alimentar de sua própria população?
Na Polônia, a integração com a União Europeia blindou o país através do incentivo à agricultura familiar e à produção diversificada. O resultado é um mercado interno resiliente, com preços locais estabilizados. Já a Ucrânia, historicamente moldada como um gigante exportador de trigo, milho e óleo de girassol, ilustra o outro lado da moeda: embora o modelo gere divisas bilionárias, ele exige uma vigilância estatal implacável para que a busca pelo mercado externo não desabasteça o país nem inflacione o prato do cidadão comum.
O Brasil tem muito a aprender com esse espelho do Leste Europeu. Em vez de canalizar a maior parte dos subsídios e do crédito para o megajogador do agronegócio exportador — que enriquece poucos e monoculturaliza a terra —, o Estado brasileiro precisa assumir uma postura estratégica. Fortalecer a agricultura familiar com crédito justo, assistência técnica real e acesso direto ao mercado não é assistencialismo, é soberania econômica.
A receita para baratear a cesta básica já existe, falta vontade política para aplicá-la em larga escala: expandir radicalmente os programas de compras governamentais para escolas e hospitais públicos, priorizando o pequeno produtor. Isso descentraliza a produção, reduz a dependência logística dos grandes cartéis de distribuição e encurta a distância entre quem planta e quem come.
Se a Polônia vincula sua produção à segurança alimentar e a Ucrânia precisa regular suas exportações para conter crises internas, o Brasil não pode mais ser refém do “agro que exporta tudo e alimenta pouco”. Usar a política agrícola e comercial para regular estoques e taxar o excesso de exportação em momentos de crise é o caminho urgente para que a comida farta chegue, finalmente, às periferias e às mesas das famílias trabalhadoras.
Valmirar Gomes


