Ignorância ou oportunismo? O Salão Oval como cortina de fumaça e o colonialismo de conveniência
A velocidade com que o marketing político opera no Brasil é inversamente proporcional à profundidade do debate sobre a nossa soberania. Na última semana, o Salão Oval da Casa Branca serviu de palco para mais um capítulo do realismo fantástico que domina a política nacional: o encontro do senador Flávio Bolsonaro com o presidente norte-americano Donald Trump. A narrativa oficial vende o episódio como uma vitória categórica da “segurança nacional” após os EUA incluírem o PCC e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais. Porém, basta limpar a fumaça dos holofotes para enxergar o que de fato move essa engrenagem: oportunismo eleitoral e a necessidade urgente de desviar o foco de escândalos domésticos.
A princípio, o timing da viagem a Washington é cirúrgico. O senador e pré-candidato ao Planalto viu-se enredado no avanço das investigações da Operação Compliance Zero e nos vazamentos de mensagens que expuseram suas ligações íntimas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Com cobranças de pagamentos milionários para o financiamento de uma cinebiografia familiar vindo a público e a pressão pela abertura de uma CPI no Congresso Nacional, a estratégia foi clássica: criar um fato político de magnitude internacional para mudar o assunto das redes sociais.
O problema é que, no “tocante” à segurança pública, o remédio proposto flerta com a irresponsabilidade jurídica. Ao pedir a uma potência estrangeira que classifique facções criminosas brasileiras como grupos terroristas, abre-se uma caixa de Pandora. Promotores de Justiça e juristas sérios já alertaram que a legislação brasileira de combate a organizações criminosas e lavagem de dinheiro é robusta e prevê punições severas. A sobreposição de leis antiterrorismo norte-americanas não apenas complica a cooperação jurídica formal, como cria brechas perigosas. Sob o pretexto do “combate ao terrorismo global”, abre-se espaço para que os Estados Unidos realizem operações de inteligência extraterritoriais, congelamento unilateral de bens e, no limite, intervenções militares secretas em solo brasileiro. É a entrega voluntária da nossa soberania em troca de um punhado de curtidas e uma foto de campanha.
Essa miopia estratégica encontra eco no oportunismo regional. Aqui em Mato Grosso do Sul, o fenômeno ganha contornos provincianos, mas igualmente nocivos. Um conhecido cacique político local — figura carimbada que já ocupou uma cadeira de deputado federal e governou o estado por duas vezes — correu para as redes sociais para aplaudir o encontro Flávio/Trump, endossando o discurso de que a medida protege as fronteiras do MS e a segurança do país.
É um fato curioso, mas perfeitamente explicável pela lógica das urnas. Dotado de inegável inteligência política, esse ex-governador sabe muito bem que Mato Grosso do Sul é um estado de forte inclinação conservadora. Ele não é “Bolsonaro” por convicção ideológica; é “bolsonarista” por puro cálculo eleitoral. Viu no episódio a oportunidade perfeita para vestir o figurino do patriotismo de conveniência, de olho no eleitorado de direita que pretende angariar em sua próxima campanha.
Quando a poeira assenta, o diagnóstico que fica é desalentador. Seja em Brasília, surfando na geopolítica de Washington para esquecer o Banco Master, ou nas trincheiras políticas de Mato Grosso do Sul, moldando o discurso ao sabor do vento eleitoral, a conclusão é a mesma: as ambições pessoais, o instinto de autopreservação e a busca obsessiva pelo voto continuam sendo colocados muito acima dos reais interesses e da soberania do povo brasileiro.
Valmirar Gomes

